Vamos eleger os poemas e os poetas do ano 2026, em Portugal. Um concurso de tema livre, aberto a todos os autores maiores de 18 anos. Aqui, quem vota é o leitor, e os poemas mais votados serão editados em livro, numa antologia homónima. 

"POETAS DO ANO" é um concurso de poesia promovido pela Creative Books

Vamos fomentar o interesse pela poesia, incentivar a escrita e divulgar os autores de poesia escrita em língua portuguesa.  

FUNCIONAMENTO 

1. O concurso decorre entre os meses de janeiro e dezembro de 2026, com entregas mensais de poemas por parte dos participantes;
2. Cada participante pode apresentar um poema por mês;
3. A participação é efetuada até às 23h 59min do último dia do mês anterior ao do concurso, através do formulário abaixo;
5. A votação é aberta ao público e decorre mensalmente entre as 12h do primeiro dia e as 23h 59min do último dia do mês;
6. Os 10 (dez) poemas mais votados de cada mês serão publicados em livro.
Consulte o regulamento 2026 completo.

METAS

Escreve poesia? Participe no concurso “Poetas do Ano” e veja o seus poemas publicados em livro.

LIVRO

Os 10 (dez) poemas mais votados de cada mês são publicados em livro pela Creative Books, numa antologia homónima, sem qualquer custo para os participantes.

PROMOÇÃO

É oferecido um pacote promocional de publicação ao autor do poema mais votado. As características serão anunciadas mensalmente na página web da Creative Books.

DIPLOMA

Os autores dos 3 (três) poemas mais votados do mês recebem um diploma digital de Poeta do Mês.

PARTICIPE JÁ!

PARTICIPAÇÃO

Efectue a sua participação através do formulário. Relembramos as carecterísticas da obra: 

1. A participação é submetida com uma declaração de compromisso do candidato em como é o único autor da obra original e inédita e que a mesma nunca foi publicada em papel ou nas plataformas digitais, constando da mesma o nome completo do autor, a sua nacionalidade, número de documento de identificação e respetiva validade;

2. Os poemas a concurso devem ser: escritos em língua portuguesa; inéditos; de tema livre; intitulados e assinados;
redigidos com o tipo de letra Arial, tamanho 12, espaço e meio entre linhas, não devendo ultrapassar uma página A4.
Submeta o seu ficheiro em formato .docx (word) ou .pdf. Consulte o regulamento completo.

VOTAÇÃO

Manhã crua.
Vulto breve,
sem nome nem corpo;
não chegas, atravessas.
Entras pela casca da pele
entornando fragâncias
de flores recém-abertas.

Na curva vazia da cama
sinto a falta de um ombro;
lá fora as árvores entornam pólen
e derramam tempo na sombra:
verde demais, escarlate do sol.

Subo na brisa do quarto,
flutuo em perfume fresco;
a janela chama-me.
Beber luz é vício, pensar-te é dar-me ao sol.

Ofuscas e transbordas na memória,
secas-me a boca com sabor a malmequeres.

Abril guarda na língua a doçura do morango,
tem suor misturado no trinado dos pardais.

Lânguida, floresces em mim.
Sinto sob os poros arrepiados os rebentos,
e o arfar das folhas no tronco húmido.

Maravilhado, respiro fundo:
pólen escarlate, trinado dourado, flores eriçadas.

E não quero, não sei fugir:
preso a ti, nem a sombra do dia me liberta;
nem flor alguma se atreve a semear-me.

Pés descalços no algodão do teto,
onde o azul tem frestas de silêncio.
Sou resto de meiguice,
mãos pequenas moldando o farelo da nuvem.
A infância é um pântano de mel
onde o tempo não escorre.

Joelhos esfolados, ainda quentes do vapor,
pedras brancas no bolso do pijama de estrelas.
Não explico o céu: invento-o.
Fruta doce — polpa de fumo e desejo de ter.
O amanhã é rumor de búzios.
Bate à porta, faminto e sedento.

De súbito, o peito ganha uma quilha.
A vela enfunada rasga o nevoeiro das sestas.
Já não sonho o mundo: conquisto-o.
Sou descobridor de continentes
no horizonte da sala,
viciado na vertigem do destino,
na aventura de não saber regressar.

Embriaguez de ser maré alta
sem perceber que a lua já dita o recuo.
Afoiteza.
O vigor é um grito que não precisa de eco,
uma corrida que ignora o relógio da cozinha.
Não sei que sou breve.
Tenho apenas este incêndio que queima.

Ter o amanhã na palma, como um sonho quente.
A criança ficou presa no algodão sob o teto
enquanto o jovem veleja por entre a espuma do mar.
Tudo é agora.
O tempo é um erro de cálculo.
Eu sou a fenda que o mar não prevê.

As vozes antigas da terra

Escondem tesouros na alma, selados em silêncio

Caminhas entre folhas e flores, e o suave vento

Num deserto de sal de lágrimas antigas

Desenha sentimentos na bruma da escuridão

A lua ao longe e uma tentação, nesse recordar

Na radiosa luz do sol, o mar ao perto e ao peito

Num suave turbilhão, por esse navegar

Entre amanheceres e entardeceres

Evocas as vozes do amor, para de noite embalar a tua amada

Numa música que a faça sonhar, talvez ela recorde ao acordar

Durante esses dias de solidão, que nunca amaras ninguém

E ainda esperas por ela, nesse caminhar pelo destino

Onde um dia talvez nos faça encontrar

Entre tantas vidas, no colo de um abraçar

E descobrirmos finalmente, que as nossas mãos

Se encaixam perfeitamente uma na outra

Para caminharmos nesta vida lado a lado

Entre tanto coração quebrado

Nesse tesouro selado, pelas vozes antigas

Que agora nos sussurram ao ouvido.

Santo és Tu, ó Senhor dos Exércitos.
Que as minhas lutas encontrem o Teu perdão.
Que os meus dias cansados sejam alcançados pela Tua graça.
Que os meus dias sejam menos sombrios.
Que o meu sorriso não se apague.
Que a Tua graça me alcance.

Ó Deus…
Ó Deus…
Liberta o Teu filho, como fizeste com o rei Davi.
Perdoa, Senhor, o Teu servo.
Reconstrói a minha vida
e concede-me dignidade.
Envergonha os meus inimigos
e faz com que se afastem de mim.
Lança por terra os que me difamam.

Tu és grandioso, ó Deus.
Conheço os Teus ensinamentos
e reconheço que falhei nos Teus mandamentos.
Vejo o meu pranto cair como o de Davi.
Ele sofreu… e eu também sofro.
Teu Filho sofreu na cruz.
Jó sofreu, posto à prova.
Os apóstolos sofreram
e muitos foram mortos.

Mas Tu exaltaste muitos:
uns tornaste mártires,
outros restauraste,
outros deixaste como mensageiros.

Mas, Deus…
olha para mim.
Olha o Teu filho.
Por que ainda me deixas sofrer?
Por que pareces ter-me abandonado neste mundo?

Deus… Deus…
não me deixes nas sombras da noite.
Clamo a Ti por perdão.
Peço a Tua graça.
Peço descanso e paz.

Deus…
quero a Tua mão,
o Teu amparo.
Preciso de Ti para viver.
Preciso do Teu perdão.
E, acima de tudo, não me deixes só.

Ó Deus, Senhor dos Exércitos.

As paredes são altas demais
para qualquer sonho saltar.
Alice conta as pedras frias
como quem conta horas mortas,
uma, duas, três…
até os números perderem sentido.
Aqui não há coelhos atrasados,
nem portas minúsculas
que levem a jardins impossíveis.
Há apenas ferrugem nas grades
e um silêncio pesado
que se deita ao lado dela todas as noites.
Às vezes
ela pensa ouvir cartas a baralhar
no fundo do corredor,
como se a Rainha ainda gritasse
ordens que ninguém cumpre.
Mas é só o vento
a arrastar correntes pelo chão.
Alice aprendeu que neste lugar
as histórias não crescem,
apodrecem devagar
no escuro.
E o espelho que antes mostrava mundos
agora devolve apenas
um rosto pálido
com olhos que já não procuram saídas.
Porque nesta prisão
nem os sonhos sabem fugir.
E no fundo da cela
Alice compreende finalmente:
há países das maravilhas
que nunca deveriam ser encontrados.
Sair do seu apartamento apenas para comprar comida
para sobreviver mais um dia
e assim viver
e ficar condenado a estar vivo

sei que vou
por onde me leva
uma incógnita razão

sei inclusive
que por defeito
cheguei a pensar
que me tinha na mão

mas não
ilusão e consciência
coabitam
exercem num fórum
de espacial abstração

oiço das ciências
o lugar das coisas
e das coisas no seu lugar
entretanto
permanece oculta
a órbita da consciência

onde quer que me levem
ouso acreditar
ter acesso a consciência
por mais estranha que pareça
essa outra eclosão da vida

Como a vida me presta em poetizar?
Nada serve gastar em palavrear!
Poemas são poemas,
Ninguém se vai interessar.
Poetas estão debaixo de lapidadas pedras,
De nada serve fingir ser poeta!
Nem sei porque me tento enturmar…
Entre os mortos, quem tento ser vida nesta?
Sou mais um aqui a tempo desperdiçar

Na espera vejo o mundo nas suas cores,
o negro prevalece, iluminado por um sorriso
perdido na multidão.

Fomos engolidos pela sociedade,
o sorriso outrora inocente e radiante
esvaneceu – resta apenas um deslumbre
do seu eu verdadeiro.

Temos que parar, não para ver as cores de hoje,
mas para ir buscar as cores perdidas no passado.
Só assim construiremos uma sociedade justa, para a geração que nos sucede

Não me almeje esquecimento,

Vivo de tear memórias,

Árduas naves, esguias correntes,

Num sempre rio de regresso.

Mas se puderes, me estende o olhar,

Por dentre o frio tecido dos ventos,

E se ainda de rosáceas, puderes no jardim semear,

Lembra-te: costuro em meu peito,

Sina, flor, tempo,

E me esvaio num sol que tarda,

E me enleio num canto sem tréguas.

Não foi o acaso que te trouxe,

nem o tempo que te desenhou em mim —

foi algo antigo, quieto, inevitável,

como o mar que insiste em beijar o fim.

Havia já em mim um espaço teu,

um nome por dizer, um gesto à espera,

como se a vida soubesse em segredo

que um dia chegarias — e tudo era.

Nos teus olhos encontrei caminhos

que eu nunca ousei imaginar,

e no silêncio das tuas mãos

aprendi, enfim, a ficar.

Se o mundo fosse ruído e pressa,

serias ainda o meu lugar,

o ponto exato onde a alma

desiste de fugir… e quer ficar.

E se o destino é só um fio invisível

que liga o que tem de acontecer,

então deixa-me dizer-te sem medo:

eu nasci para te reconhecer.

Porque entre todos os possíveis encontros,

entre todas as versões de nós,

foi esta — tão simples, tão inteira —

que o universo escolheu… por nós.

E quando o tempo fechar as portas

E o dia se desfizer em pó,

Serás ainda a luz que guardo

Quando tudo em mim for só.

Pois amar-te é mais que um instante,

É raiz funda no que sou,

É saber que, mesmo em ausência,

Há um “nós” que nunca acabou.

é sutil esta voz
vem em modo de arrepio,
vem em modo de suspiro,
o vibrato desta canção.
deixa-a entrar, como o vento que anda no ar
a lenta combustão do fogo interno não se apaga
com a tempestade externa.
é sim resguardada pela escuta,
acariciada no momento presente da lembrança,
honrada na lágrima solta e na imagem projetada da saudade,
revivida na copa das árvores,
na voz deste silêncio,
esta é a ode
às escolhas do coração.

Tu!

inquietude nudez,

sentada no imenso luar azul,

tingida de céu, coberta de estrelas,

descalça e louca de amor,

numa silhueta articular!

Segues a divindade do ser,

a esperança de encontrar,

a suavidade de chegar,

sentindo os pés bem ao de leve

e calcorrear a areia, sem nada patinar;

sentes debaixo dos pés o caminho.

E eu que ao longe vejo uma sombra,

um bramido,

um mar de ondas ecléticas,

de espuma branca,

cobrindo teu ser,

teu corpo amplificado,

tua figura nua,

passeando no imenso areal…

O búzio te clama, o som exalta!

És tu,

és real,

és a sombra do meu coração.

A majestosa insipiência,

da inspiração da imagem nua,

faz de nós profetas da vida,

do olhar intenso e vivido,

sobre as coisas belas!

A saia da minha Mãe
não é curta nem comprida,
nem rodada nem apertada,
não tem pregas nem é plissada,
não mostra os joelhos… não se vê mesmo nada.

É uma saia gigante
que nunca encontrei outra igual,
tem um cheiro reconfortante
e sabe até embalar.

É abrigo e é amparo,
é o abraço mais forte.
Ter a saia da minha Mãe
é ter mesmo muita sorte.

A saia da minha Mãe
não é curta nem comprida,
mas nela encontro guardada
uma linda história de vida.

Ali mora o amor,
a saudade escondida,
algumas lágrimas de dor
e a memória de uma vida

É chegada a primavera
Tanta cor, tanta alegria,
Os campos enchem-se de flores,
Em repleta harmonia.

O malmequer, a papoila,
O alecrim, o rosmaninho,
Em cada árvore ecoa,
O cantar de um passarinho.

E o perfume que deixa,
O vento por elas a passar,
Felizes, movem as suas pétalas,
Como se estivessem a dançar.

E tudo isto se repete,
A cada ano que passa,
E toda esta magia eu observo,
Através de uma vidraça

Preciso de luz para poder ler nos teus lábios

doces

o castigo destes dias.

Trazes o rosto escuro da cor do sofrimento

do pão que não sobe à mesa  por desdita.

A penumbra do orvalho frio assenta-te

o corpo

esquálido de forças.

Navegas as tuas súplicas na bruma densa

das tuas memórias.

Sofres!

Preciso de luz para poder ouvir dos teus olhos

o canto das sereias

mudas no fragor da tempestade.

Escondes nas sombras dos teus seios a vergonha

dos teus murmúrios de revolta.

Trazes na boca a amargura de todos os

sentidos

amarrotados de solidão e trevas.

Reclamas dos obscuros timoneiros da tua alma

parda

a tua desgraça.

Resistes!

Preciso de luz para te ajudar a encontrar o caminho

rumo aos dias claros e quentes

que anseias.

Cresciam tantas flores no teu jardim,
Todas elas de diferentes variedades:
Dálias, lírios, sapatinhos, jasmim…
Mas nenhuma te causava dificuldades.

Era no meio de tanta fartura,
Que se destacava apenas uma flor.
Ela trazia um ar de frescura,
Com a suavidade da sua cor.

Tinha de nome, Narciso.
Esse, que sempre me faz lembrar
De ti, do teu lindo sorriso
E do teu carinhoso olhar.

Passava horas a contemplar
Tal flor, tão bonita e delicada.
Tu ficavas ao meu lado a ensinar
Como ela deveria ser cuidada.

Foram tempos bem vividos,
Mas hoje tornaram-se histórias.
Já não me consegues dar ouvidos,
Pois tornaram-se puras memórias.

Quando te foste embora,
O teu jardim perdeu a cor.
Murchou toda a flora,
Causando-me muita dor.

Demorei muito para entender
O porquê da tua partida,
Mas hoje consegui aprender
A ver esperança na dor sentida.

Sabes, agora tenho um jardim.
Ainda não tenho muitas plantações,
Mas prometo cuidar dele até ao fim,
Independentemente das estações.

Dei-lhe o nome de coração,
Onde o que sinto é imenso.
Nele caem pétalas de emoção,
E sente-se o perfume intenso.

O meu jardim, só eu o vejo.
Nele plantei uma pequena semente
Vê-la crescer é o meu maior desejo,
Espero que no futuro ela rebente.

Antes o Narciso era o mais belo,
O que mais chamava à atenção.
Tudo por causa do seu ar singelo,
E pela sua facilidade de distinção.

Esta semente trouxe mais cor.
Sinto que tudo melhorou para mim
Uma vez que, agora, és tu a flor
Mais bela do meu jardim.

A pessoa que eu amo
faz-me sofrer como ninguém o fez.
A pessoa que eu amo
prefere amar sem sensatez.

Afasta-me e aproxima-me…
rebaixa-me e anima-me…

A pessoa que eu amo
não merece este amor,
mas só a pessoa que amo
acalmaria incólume dor.

Não sei por que a pessoa que amo
se move em constante oscilação:
ama e impossibilita,
não atenta o coração.

Usurpa-me a vida
e dá-me tudo quanto não mereço:
lágrimas, saudade e desapreço.

A pessoa que eu amo
não escolhe realmente ficar,
pois, afinal, a pessoa que eu amo
jamais na vida soube amar.

E só no final o cordel se desfaz.

Varro o que não mais aceito – migalhas.
Na ilusão de viver o teu potencial,
dei-te terreno para as tuas falhas.

E só no fim o cordel se desfez:
a pessoa que eu amo,
sou eu – desta vez.

Quando as nuvens eram feitas de algodão doce
e o silêncio falava como se fosse
um velho contador de histórias sem fim,
que inventava segredos só para mim.

Quando os gatos latiam e os cães miavam
e os peixes nas árvores tranquilamente nadavam,
quando as portas se abriam com um sorriso
e os sonhos moravam neste pequeno improviso.

Quando as estrelas desciam para brincar
e o céu se esquecia de as vir buscar,
quando a noite cantava mais do que o dia
e o medo fugia, fugia, fugia.

A lua dá-me alvura das sombras

Gestos perdidos na resina da noite

Entregam-me paz e nada.

E nada é tão bom

Tão descomplicado e inerte

Que os cavalos voam sem códigos

Sem a tirania do instinto

Sem a mordaz tentação de soltar o vento.

E eu…

Guardo o suspiro por cima de mim

Por cima das torres do pensamento

Pedindo à lua:

Quando eu for cinzas

Me beija nas sombras

(mas pelo lado do silencio!)

A harmonia da natureza
um barco ancorado,
uma gaivota a mirar
e o Tejo a balançar.

Uma gaivota de vigia,
a ponte em pano de fundo,
as nuvens vão passando
e tudo segue o seu rumo.

Os barcos ficam parados,
voltados de frente à ponte,
enquanto o céu se move devagar
e o tempo cai no horizonte.

E eu, no meio de tudo,
quieta, a observar,
como se o mundo inteiro
parasse só para respirar.

Mais tarde, na cama nova,
no início nem me deitei,
depois, devagar, entrei
e em silêncio me encontrei.

Entre o rio e o céu,
entre o instante e o lugar,
percebi que, mesmo em mudança,
há sempre algo a acalmar.

Há ruas onde a noite chega mais cedo,
não por causa do sol,
mas porque a luz nunca foi para todos.

As paredes falam em tinta gasta,
nomes riscados, promessas por cumprir,
rostos que ninguém aprendeu a ler.

Na televisão, o país é outro —
limpo, direito, sem falhas visíveis,
um retrato onde não cabem estas esquinas.

Aqui, o tempo tem outro peso:
demora mais a passar
e menos a ser lembrado.

Os corpos aprendem cedo
a linguagem da contenção —
baixar os olhos, medir palavras, evitar existir demais.

E quando alguém grita,
não é só voz que se levanta,
é um mapa inteiro a recusar-se a desaparecer.

Mas há silêncios que resistem mais do que muros,
e há muros que se alimentam desse silêncio —
é assim que o mundo se organiza sem parecer injusto.

Na rua detalho a ignorância pura.
A ignorância de querer viver sem aprender.
A ignorância de uma palavra sem significado.
A ignorância de sentir o que vejo sem perceber.

Sofro por aqueles que não sofrem.
Quando chegar o meu turno, eu direi para mim o quanto sou feliz.
Feliz de pensar para sobreviver.
Feliz de caminhar com os pés atados.

Queria dizer tudo o que penso, mas contradigo o sentimento.
Sou um ser ansioso e triste.
Triste por saber que aqueles a quem eu sou parecido, não têm um pão para comer.
Triste por saber que aqueles a quem eu sou parecido, não têm um teto para morrer.

Tenho medo de me tirarem o pouco que eu tenho.
A não ser o pouco que ainda faz de mim
Um ser humano.

Muitas são as palavras na língua,

Infinitas combinações de sentidos e criações;

O que fazer quando diante de uma imensidão 

Tão profunda e de vácuo tão intenso?

A lança dos sons e vocábulos serve de âncora 

E prende ao chão os audazes do frio mundo,

Aventureiros na busca do amanhã, tão incessante,

Sem entender que os próprios são o seu amanhã…

Estarás tu no meu amanhã, a guardar com virtude,

E virtuosa estarás de coração apavorado e confiante?

Encontra-me nos confins da minha vergonha,

Traz-me ao sentido que é o nosso existir.

Surgiste como reticências, crescente ficaste na vírgula,

Floriste na exclamação e continuas entre pontos e vírgulas;

Mas o que me encanta? São os teus períodos de declaração…

Onde declamamos as novas narrativas.

Dizem que o peixe não chora.

Mas há um brilho que o denuncia,

um sal que se mistura ao mundo

antes de alguém o reconhecer.

Talvez seja assim a tristeza:

uma água que se dissolve

no próprio lugar onde nasceu.

Peixe como consciência submersa,

lágrimas invisíveis, memória líquida.

A Mão. Traço. Rasto.

Questiona olhos nos olhos o dia a dia acordado em explosão

Passado e presente em fracturas munidas de crateras na pele

Somam-se em vertigem tempos de vida presentes em extinção

A Mão. Traço. Rasto.

Corre-lhe na memória o dito e o quanto há de novo a dizer

A linguagem como arma e rosto de visibilidade árdua e sentida 

O silêncio despacha palavras obscuras que ditam negras fugas

A Mão. Traço. Rasto.

Para além das declarações, o ímpeto da voz clara e aguda

No escape da guerra do tempo, língua urgente acesa na poesia  

A poética no requisito da palavra mergulhando na humanidade

A Mão. Traço. Rasto.

No caminho da voz concreta o injectar doutras madrugadas

Identidade da linguagem a reaprender no vácuo do humano

Lidas em voz alta, as palavras que sugerem ser novo poema

Hoje só tento existir.
A minha alma foi sugada.
já nem sei como me distrair,
Parece que levei uma facada.

Desta vez deixei-me atingir,
Deixaste marcas que não esperava.
Eu só me queria divertir,
e acabei mais presa do que estava.

Não me vou mais diminuir,
Estou demasiado cansada
Tenho de parar de insistir,
antes que não reste quase nada.

Mesmo sem querer admitir,
Há um medo que não se apaga:
que me voltes a construir
na versão de mim que já não fala.

A andorinha regressa a cada primavera,

aqui encontrou o seu lar.

Voa, voa tão intensamente

na ansiedade de cá chegar.

Empurrada pelo vento,

suporta a chuva e a tempestade.

Tantas vezes voa em sofrimento,

mas vai em paz na sua liberdade.

E, quando finalmente chega,

no seu ninho nasce a vida:

cuida das suas crias com cuidado,

sempre forte e destemida.

Voa pelos jardins,

embeleza a paisagem.

É feliz a cada voo,

a cada viagem.

Chega o outono e está de partida,

vai para longe, foge do frio.

Segue em bando para outras paragens,

afasta-se do tempo chuvoso e sombrio.

Também eu sou uma andorinha,

sou filha da liberdade.

Encontrei a vida no amor

que existe em cada cidade.

Longe da capital,
um amontoado de prédios.
No verde dos campos ergue-se,
onde se escuta o cantar dos pássaros.

Quando ouvem seu nome,
apelidam de mau lugar,
nem o transporte e a fama ajudam.
Algo injusto e ridículo!

Pela escura madrugada
ouve-se os barulhos dos poucos carros,
mas ao belo nascer do sol
escuta-se o silêncio.

Ele é igual a tantos lugares privilegiados
e é só mais um sítio,
entre o bom e o imperfeito.
Ele chama-se Bairro!

Pisou-o vezes sem conta
Mil encontros por contar
Tantas vezes que ele o pisou
Por umas noites de prazer
Sem-quentas vezes pestanejar.
     Inabitado e com o teu nome selado.

Levou o que de bom tinha
Ficou a couraça débil
Rachada em melindrosas teias
Raiva, rancor e revolta
Rastejam pelos teus passeios.
    Inabitado e com o teu nome selado.

Vê como o trataste,
não desvies o olhar!
Pouco ficaste p’ra ver os cacos
Vê agora como ficou
o meu coração de trapos.
     Inabitado e com o teu nome selado.

Exijo que me devolvas
a juventude,
a ousadia e o calor
Devolve-me a alegria,
a paz, a justiça e o amor.
     Quero-o desabitado e o teu nome apagado

NOTAS:

1. Cada utilizador tem direito a um voto por dia (24h) no seu poema favorito, com bloqueio definido por Internet Protocol (IP). Significa que se vários utilizadores partilharem a mesma ligação de Internet, só será possível efetivar um voto por dia através da respetiva ligação. O limite de votos é definido por IP e não por dispositivo (telemóvel, computador ou tablet).

Exemplo: no dia 1, às 15:00, a Maria utilizou um dispositivo em casa, ligado à rede local, para votar no seu poema favorito. Assim, só poderá repetir o voto – a partir da mesma rede local – quando passarem 24 horas, ou seja, no dia 2, após as 15:01;

3. Os resultados serão apresentados conforme estipulado na alínea a) do ponto 1 do artigo 3.º. Os 10 (dez) poemas vencedores são divulgados nas redes sociais da Creative Books até ao quinto dia útil do mês seguinte;

4. Para confirmar a validação do seu voto, verifique o sinal verde no topo do pop-up de votação.

VENCEDORES

VOTE NO SEU POEMA FAVORITO: